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“Somos pobres de histórias surpreendentes. A razão é que os fatos nos chegam acompanhados de explicações”.
Walter Benjamin
Os desafios que se articulam ao modelo de Ensino Médio, nessa primeira década do século XXI, ganharam notoriedade com as discussões e mudanças endereçadas pela UNESCO e que foram acompanhadas no Brasil pelo Ministério da Educação. A consolidação do ENEM como um importante instrumento de avaliação externa do desempenho dos alunos, nessas séries concluintes da formação escolar, resvalou também em considerações sobre a eficácia e a pertinência do que se ensina nas escolas. Em outras palavras, todo o processo de escolarização dos alunos ao longo do seu percurso escolar foi posto em xeque, com acentuada primazia para os três anos finais da sua escolarização.
Por outro lado, sabemos que os alunos ingressam no Ensino Médio após vários anos de estudos e que não podemos desqualificar toda essa grande multiplicidade de conhecimentos. Isso posto, reconhecemos as especificidades que estão implícitas aos desafios do momento e vislumbramos uma concepção de ensino que incorpore o repertório adquirido pelos alunos desde os primeiros passos da sua vida escolar.
Em outras palavras, acreditamos que o Ensino Médio seja uma etapa extremamente importante na formação escolar de nossos alunos. Um segmento que garanta que os conceitos e conteúdos adquiridos ao longo de toda a sua formação possam agora avançar em grau de complexidade, superando os limites de uma linguagem acentuadamente didática e, por vezes, marcada por um envolvimento ainda muito ingênuo em relação ao conhecimento.
A especificidade da faixa etária em questão – adolescentes em transição para o mundo adulto – coloca em questão a urgência de anteciparmos os inúmeros desafios impostos pela escolha da carreira profissional e o diálogo sempre atualizado com as demandas das universidades, ampliando a possibilidade de carreiras e de novas profissões que surgem com o avanço tecnológico.
Para tanto, a consolidação de uma base curricular que contemple, ao mesmo tempo, as expectativas comunitárias da Nova Escola Judaica e as necessidades de se articular à conjuntura nacional do Ensino Médio que se projeta para o futuro no país, deve nortear as concepções e os procedimentos de ensino e de aprendizagem e o tratamento dos seus saberes, bem como a maneira pela qual se organizam os diversos ramos do conhecimento no espaço escolar.
Desta maneira, ao postularmos um Ensino Médio organizado por áreas do conhecimento - Ciências Humanas e suas tecnologias: História, Geografia, Sociologia, Filosofia e Cultura e Tradição Judaica; Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias: Biologia, Física, Química, Álgebra e Geometria; Linguagens, Códigos e suas Tecnologias: Língua Portuguesa, Literatura, Inglês, Espanhol, Artes e Educação Física - notadamente reconhecemos que a atual composição por disciplinas engendrou um currículo extremamente discrepante e fragmentado, não só em relação aos objetos de estudos e conceitos específicos às disciplinas, mas também às diversas práticas e estratégias didáticas empregadas pelo corpo docente. Dessa forma, acreditamos que todas as disciplinas que contemplam a matriz curricular do Ensino Médio da Nova Escola Judaica só possuem significados quando articuladas a um núcleo maior – à área – para que os alunos possam, com base em protocolos e procedimentos comuns da área, superar uma visão parcial e utilitária em relação ao conhecimento.
Por sua vez, o reconhecimento de que a escola é uma instituição privilegiada para um “fazer científico” se configura no empenho de que os inúmeros saberes escolares agregam maior significado quando associados à prática da pesquisa, que de maneira alguma deve estar circunscrita apenas a projetos específicos, mas disseminada diariamente entre as inúmeras ações incorporadas pelos docentes em suas diferentes disciplinas. A capacidade de leitura e de escrita transforma em paradigma o reconhecimento da literalidade como um procedimento primordial nos diversos vínculos que os alunos estabelecem com áreas do conhecimento, ampliando por meio do rigor e da disciplina intelectual o grau de autonomia em relação ao conhecimento escolar.
No mesmo sentido se aplicam ainda outras intervenções que são para nós igualmente decisivas nesse percurso formativo-discente. Consideramos ser da natureza do Ensino Médio propiciar momentos em que a produção do conhecimento contemple e amplie os espaços de aprendizagem e que, ao mesmo tempo, reconheça na convivência do trabalho em grupo, a viabilidade de aprender no diálogo e na convivência com o outro. Nesse caso, os estudos de campo e demais saídas pedagógicas, forjados a partir de uma criteriosa metodologia de pesquisa permite aos alunos se apropriarem de um repertório conceitual articulado pelo calor da vivência e direcionado pelos objetos de estudo emanados no envolvimento cotidiano das disciplinas.
É nosso compromisso fazermos dos principais projetos, pregressos no Ensino Médio, um espaço qualificado de produção do conhecimento e qualificação de uma atitude investigativa. Articular práticas distintivas do fazer pedagógico, direcionadas pelo laço orientador-orientando, caminhos transcritos por um ofício singular e de afirmação da função da escola e do educador, do significado e da especificidade de seu saber. Essas são metas que alçamos em vôos pequenos e diários, mas que não invalidam a imensidão do desejo universal e maior de buscarmos o humano e se afirmar pela busca incessante do conhecimento.
Por fim é necessário pensarmos no entroncamento de todo esse saber escolar com a perspectiva de um currículo social da educação e a constituição de um diálogo intrínseco com rol de conteúdos que aparecem articulados no espaço público da escola. O tratamento dado à ciência e à cultura, base e matriz do conteúdo escolar não podem estar isolados ou “suspensos no ar”.
Nesse sentido, propomos um currículo para o Ensino Médio que reconhece a função social da educação e a sua perspectiva de humanização, conferindo ao conhecimento o legado de transformar pela reflexão e pela critica, os inúmeros impasses que acompanham a condição humana.
Todos esses aspectos aqui realçados são instrumentos herdados de uma tradição que devemos institucionalmente preservar para as futuras gerações. A memória dessas duas comunidades-escolas – Bialik e Renascença - é solo onde forjamos nosso fazer – a pedagogia. A memória dos imigrantes judeus que, em tempos sombrios, ousaram afirmar pela educação a missão maior de transformar o mundo, sombreia os nossos gestos, e com eles avançamos em busca de uma educação transformadora no Brasil, nesse espraiar do século XXI.
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